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A garrafa e a caridade - 21/8/2008

Às vezes, a tristeza toda. A gente mal estaciona o carro para almoço em tarde amena de domingo e dá de cara com um sem-teto. Quer dizer, um sem teto apropriado, pois eis que o ser humano, em questão, utiliza-se do improvisado toldo de uma oficina para se manter seco, suplantado em colchões esmigalhados. E não é que, no meio da chuvarada de início de ano, a gente até que fica mais sensibilizado com mazelas metropólicas desse tipo.
Eu, que por poucos centímetros de estacionamento quase atropelo o homem, retorno à realidade. Acabo de saciar mais do que a fome, em pueris barzinhos matinais, e ainda sequer entendo a súplica silenciosa do sem-teto. Tampouco compreendo essa irônica insistência sua no viver a qualquer maneira. Bato a porta do carro. O homem deitado com a cabeça escorada no chão, quem diria, solta-me esparso cumprimento. “Olá” é o que ele diz.
E enquanto tento prosseguir em meu caminho, o sem-teto me chama. Levanta-se pela metade dos escombros, apoiado pelo antebraço. Percebo logo os esparadrapos. Em sonolenta inclinação, ele me pede: “será que dava para você abrir a minha garrafa de água? É que eu estou com o braço quebrado”.
Engraçado como a vida sempre nos puxa para as piores indagações. Enquanto imagino que o homem vá me apontar, matreiro, um revólver ou coisa parecida na oportuna ocasião, ele apenas me entrega a garrafa pet esverdeada de água quente. O almoço inteiro, à minha espera, e o homem simplesmente aguarda a água pura em frente ao restaurante.
Lembro-me da palavra caridade, que se materializa sobremaneira nos mínimos gestos de uma pessoa. Deixei o homem sem-teto, de braço quebrado, dessa vez com a migalha duma garrafa de água bem aberta e nada de substancioso além dum tímido “Deus te ajude”.
Agora não sei o motivo dessa impressão estranha de que foi ele é que me deixou algo.

Marcos Tadeu é jornalista, especialista em Arte e editor do Jornal Integração e Radiografia


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