Coluna Livre

Marcos Tadeu

A palavra cruzada de Seu Miranda - 23/7/2009

Geralmente as denominações sogro e sogra causam certo arrepio por parte de genros e noras. Para as noras sempre foi mais difícil agradar - ou mesmo convencer - mães de seus maridos. Para nós, genros, sempre existirá uma barreira invisível a nos separar da intimidade com os sogros.
Com Seu Miranda não foi diferente, também, nem poderia. Ainda mais que fui namorar a filha preferida ( pais costumam insistir na tecla de que todos os filhos são iguais, mas, convenhamos, há afeições entre uns ou outros inegáveis). O primeiro encontro foi sofrível. Acabava de deixar Desirée em casa e Seu Miranda na porta, olhando alguma coisa no seu carro. Desirée logo avisa ao pai: "venha conhecer meu namorado!". No que o pai, totalmente austero, responde: "mas ele não pode descer do carro e vir aqui não?". Constrangedor.
No entanto, após o temido primeiro encontro do qual ninguém que descobre a mulher da sua vida escapa, o olhar de Seu Miranda para mim foi de aprovação desde o início. O aval foi claro e simples: "é um bom rapaz".
Meu sogro precisou ser internado na CTI para que eu finalmente me reconhecesse como o bom rapaz e não como o namorado que não desceu do carro num primeiro momento para cumprimentá-lo. Disfarçou-se, como todo sogro que se preze, de pai rigoroso e bravo para que eu não tomasse liberdades demais com sua filha, mas deixou uma porta entreaberta para que eu adentrasse e lhe acompanhasse numa Skol. Talvez disséssemos, entre torresmos e copos: "essas mulheres nossas são fogo!".
Agora, com o rosto colado no vidro frio da CTI do Hospital Mater Dei, eu enfim aceito o convite que não se concretizou. Aliás, não só o convite para o bate-papo, mas o que consiste em assumir, extraoficialmente, o papel de marido de sua filha mais querida. Digo a ele que pode deixar, que eu topo o desafio. É mais fácil que a sua palavra cruzada, sem o hífen.

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